quinta-feira, 23 de abril de 2009

HISTÓRIA DE JÚLIO D'OLIVEIRA CASTANHAS

HISTÓRIA DO PIONEIRO JÚLIO CASTANHAS (Matéria Publicada na FOLHA DE PALMITAL - em 09/05/2003)


Definir o feito mais importante do imigrante português Júlio D’Oliveira Castanhas, um dos pioneiros da cidade de Palmital, não é tarefa fácil. Suas realizações, que o tornaram uma pessoa notória e influente em diversas esferas, contribuíram com a prosperidade e modernidade do município, que completou 83 anos de emancipação no mês passado.

Castanhas nasceu em Portugal, em fevereiro de 1895. Seu pai, José D’Oliveira Castanhas, trabalhava com adaptação de pedras e rochas para construção. Filho caçula, Júlio auxiliava o pai nos trabalhos enquanto seu irmão dedicava-se aos estudos. Aos 14 anos, após um desentendimento com o irmão, o jovem, como forma de punição, seria mandado para Angola ou Moçambique, então colônias lusitanas no continente africano. “O pai de Júlio queria lhe dar um castigo. Ele quase foi para a África. Depois de muita insistência da mãe, seu pai decidiu mandá-lo para o Brasil”, revela a professora aposentada Amali Miguel Castanhas, nora de Castanhas.

Quando chegou no Brasil, aos 14 anos, Júlio ficaria em São Paulo, na casa do padrinho Alberto Moreira, que era advogado e grande proprietário de terras . Porém, ficava com amigo de sua família apenas nos finais de semana, quando almoçava na casa do padrinho. Castanhas havia se empregado na construção civil e trabalhou nas obras do Museu do Ipiranga e ajudou a erguer o edifício Martinelli, ambos na capital. Algum tempo depois, ao lado de outros imigrantes portugueses, trabalhou na construção da Estrada de Ferro Sorocabana que, no início da década de 1910, chegava até Salto Grande, que era sede de Comarca e uma das principais cidades da região. Como tinha experiência em construções, um dos engenheiros responsáveis pela obra incumbiu Castanhas pela construção de uma ponte (sobre o córrego do Pau D’ Alho, entre Ibirarema e Palmital) e a feitura de um aterro, por onde passam os trilhos da ferrovia. Nessa época seu pai tentou levá-lo de volta a Portugal, o que fez com que Júlio passasse três dias escondido na mata. “Através do telégrafo da estrada de ferro, avisaram que seu pai estava vindo para Salto Grande para buscá-lo. Ele não queria voltar e passou três dias escondido em mata fechada, até que seu pai desistiu e voltou para Portugal”, relata Amali.

Em 1913, aos 18 anos, Júlio chegou a Palmital onde arrendou uma propriedade rural, onde atualmente se localiza a Fazenda Natal. Casou-se com Cândida Alves da Silva, de cuja união nasceram os filhos Flora, Encarnação, Maria Rosa, Otilia, José, Oswaldo, Geraldo, Waldemar, Waldomiro, Lourdes, Paulo e Manoel. Logo depois mudou-se para a vila de Palmital, onde instalou a primeira serraria do local. Com a prosperidade, tanto da cidade quanto de seus negócios, Castanhas inaugurou um hotel, segundo seu filho José D’ Oliveira Castanhas, o primeiro de Palmital, e abriu um armazém de secos, molhados, tecidos, calçados, entre outros artigos. Com espírito inovador, Castanhas também implantou o primeiro cinema de Palmital, que ficava atrás da igreja Matriz, em meados da década de 1920. “Esse cinema na verdade era composto por uma tela, instalada num local aberto, onde ele projetava os filmes que naquele tempo não tinha som”, explica a nora.

POLÍTICA – Júlio D’ Oliveira Castanhas entrou para política local em 1922, ano da chacina que resultou na morte de sete pessoas em frente à antiga sede da Câmara Municipal, localizada próxima a estação da antiga Fepasa. De acordo com sua nora, por muito pouco Júlio não foi vítima da matança que, na época, repercutiu em todo o país como a “Chacina de Palmital”. “Era para ele estar na Câmara no momento da chacina. Porém, ele se atrasou porque sua esposa teve dificuldades para secar um terno de linho que ele usaria na ocasião. Era um dia chuvoso e o terno estava sendo passado em ferro a brasa. Se não fosse por esse terno, com certeza ele estaria no local no momento em que os assassinos fizeram a tocaia. De sua casa ele ouviu o tiroteio.”, conta Amali que, após ouvir diversos relatos de pessoas que passaram pelo local, descreve algumas cenas da tragédia. “Foi uma coisa horrível. As pessoas que viram contam que o sangue das vítimas se misturava com a água da chuva que formava poças vermelhas na rua”.

Segundo o filho José Castanhas, seu pai tinha idéias que não condiziam com a época. Sua visão futurista, de acordo com ele , fez com que Júlio se tornasse uma pessoa de grande influência no meio político, não só no município mas em âmbito nacional. Além de manter estreitos laços de amizade com o ex-prefeito Manoel Leão Rego, Júlio D’Oliveira Castanhas também era muito próximo do então deputado federal Cunha Bueno. “Meu pai era muito amigo do Manoel Leão. Na verdade, ele era tido como um conselheiro do prefeito”, diz.

Como vereador, Castanhas chegou à presidência da Câmara Municipal em 1923. Entre suas realizações estão a organização do primeiro grupo de escoteiros de Palmital, participação da criação do Operário Futebol Clube (Palmital Atlético Clube).

Em 1930, Castanhas mudou-se com sua família para o Paraná, onde adquiriu algumas terras. Conhecedor dos processos da cultura cafeeira, foi membro eleitor do Instituto Brasileiro de Café e chegou a prestar serviços para a Secretaria da Agricultura. “Meu pai conhecia muito bem o funcionamento de máquinas de café e era muito solicitado por produtores da região”, afirma José Castanhas. De volta a Palmital, quatro anos mais tarde, fundou mais um hotel, instalado onde atualmente existe uma sapataria, no centro da cidade.

BENEMERÊNCIA - Além de suas realizações profissionais e da prosperidade que ajudou a trazer ao município, Júlio D’ Oliveira Castanhas também costumava ajudar entidades com doações em dinheiro ou mercadorias. Entre as entidades auxiliadas por Castanhas está o Hospital São Paulo, na capital. “Meu pai contribuiu para a construção do hospital. Ele angariou fundos e enviou contribuições em algodão”, acrescenta José Castanhas.

Mesmo desenvolvendo outras atividades, tanto na agricultura quanto no comércio, Júlio D’ Oliveira Castanhas continuou participando ativamente do meio político e social de Palmital durante várias gerações. Em 1976, através de projeto de autoria do amigo e prefeito Manoel Leão Rego, foi homenageado com o título de Cidadão Palmitalense.

Júlio D’ Oliveira Castanhas morreu em março de 1980 e, segundo o filho José, mantinha ideais futuristas e extremo amor por seu país. “Esses ideais nacionalistas e de orgulho pelos símbolos de nosso país eu herdei dele”, diz emocionado.

Um comentário:

  1. Por acaso você teria uma foto das pessoas que morrem na chacina ? Se tiver eu entro em contato com você, pois o Prefeito que tinha ganha na época era meu Tataravô, Martimiano Machado, que morreu junto com as autras vítimas.

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